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Se Mudando

Moradia primeiro

Esse problema tem solução, e ela já foi testada

Housing First inverte a lógica tradicional: em vez de exigir que a pessoa prove estar pronta para morar, entrega a moradia primeiro e constrói o resto a partir dali. Não é uma aposta. É uma metodologia com trinta anos de aplicação e resultados medidos em ensaio clínico.

O que é Housing First

Housing First (Moradia Primeiro) parte de uma ideia simples: moradia é um direito, não uma recompensa. A pessoa em situação de rua recebe acesso imediato a uma casa própria, com contrato e chave, sem precisar antes parar de usar substâncias, aceitar tratamento psiquiátrico ou passar por uma fila de abrigos.

O apoio vem depois e continua pelo tempo que for necessário: visitas regulares, articulação com serviços de saúde e assistência, ajuda para recompor vínculos familiares e buscar renda. A moradia não é condicionada ao progresso nesse apoio. A pessoa pode recusar um serviço e continuar morando.

Essa separação entre moradia e tratamento é o coração do método, e é exatamente o que o modelo tradicional não faz.

A diferença em relação ao modelo tradicional

O modelo tradicional é chamado de “modelo escada”: a pessoa sobe degraus até merecer uma casa. Housing First começa pela casa.

Modelo tradicional (escada)

  1. 1Pessoa em situação de rua
  2. 2Abrigo emergencial, com regras e horários
  3. 3Abrigo compartilhado ou moradia de transição
  4. 4Comprovar abstinência e adesão a tratamento
  5. 5Só então, moradia própria

Cada degrau é um ponto onde a pessoa pode ser reprovada e voltar para a rua. Quem tem quadro mais complexo, justamente quem mais precisa, é quem mais falha nos critérios de entrada.

Housing First

  1. 1Pessoa em situação de rua
  2. 2Moradia própria, imediata, com contrato
  3. 3Acompanhamento individualizado e contínuo
  4. 4Reconstrução de vínculos, saúde e renda, no ritmo da pessoa

A estabilidade da moradia vira a base para o resto, e não o prêmio no fim. Não há degrau em que a pessoa possa ser reprovada e perder o teto.

Os princípios que sustentam o método

De onde veio

O método nasceu em Nova York, em 1992, com o psicólogo Sam Tsemberis e a organização Pathways to Housing. A proposta era radical para a época: pegar pessoas que viviam na rua com transtorno mental grave e colocá-las diretamente em apartamentos próprios, espalhados pela cidade, com apoio entregue depois da chave, e não exigido antes dela. [1]

Nos primeiros cinco anos, 88% das pessoas atendidas pelo programa seguiam morando, contra 47% no sistema tradicional de tratamento residencial de Nova York. Desde então o método se espalhou pelos Estados Unidos, Canadá e Europa. [1]

O que dizem as evidências

Housing First é uma das poucas políticas sociais testadas em ensaio clínico randomizado, o mesmo desenho usado para avaliar medicamentos. Abaixo, os dois conjuntos de evidência mais citados.

Canadá

At Home/Chez Soi, o maior ensaio já feito

Entre 2009 e 2011, 950 pessoas em situação de rua com transtorno mental grave foram recrutadas em cinco cidades canadenses e sorteadas entre Housing First e o atendimento usual. O acompanhamento durou até 24 meses. [2]

Quem entrou no Housing First passou, em média, 151 dias a mais em moradia estável ao longo dos dois anos. E 69% do custo da intervenção voltou como economia em outros serviços, principalmente abrigos de emergência, deixando um custo líquido de cerca de CAD$ 6.311 por pessoa por ano. [2]

+151

dias a mais de moradia estável em dois anos

Comparado ao atendimento tradicional, no ensaio canadense.

Finlândia

O país que adotou o método como política nacional

A Finlândia adota Housing First como política de Estado desde 2008. O número de pessoas em situação de rua caiu cerca de 80% desde 1986, e a situação de rua de longa duração caiu cerca de 70% entre 2008 e 2023. Em 2023 o país contava 3.429 pessoas sozinhas em situação de rua, das quais 1.018 em situação crônica. [3]

Vale registrar o outro lado: os números finlandeses voltaram a subir nos levantamentos mais recentes, chegando a cerca de 4.579 pessoas. Não é um método que resolve o problema uma vez e para sempre. É uma política que precisa de manutenção e financiamento contínuos. [4]

~70%

de queda na situação de rua de longa duração

Finlândia, entre 2008 e 2023.

E no Brasil?

A escala do problema brasileiro é outra. Em dezembro de 2025 havia 365.822 pessoas em situação de rua registradas no Cadastro Único, contra cerca de 328 mil um ano antes. Sete em cada dez são pessoas negras, e 61% estão no Sudeste. [5]

O Housing First ainda é pouco aplicado no país. O programa Abrindo Portas, do Instituto Se Mudando, é uma das experiências brasileiras de adaptação do método, em São Carlos, no interior de São Paulo. Publicamos nossa documentação completa justamente para que outras organizações possam repetir o que funcionou e evitar o que não funcionou.

Estamos à disposição para dialogar e trocar experiências sobre o tema com quem quiser implementar algo parecido.

Conheça o Programa Abrindo Portas

Cada pessoa assistida custa em média R$1.000,00 por mês. É o que separa alguém de voltar para a rua.

Juntos nós podemos! Vamos?

Apoie a partir de R$3,00